Quanta da produção de grãos do Brasil foi afetada pelas chuvas?
Chuvas sem precedentes atingiram o Rio Grande do Sul (RS), o estado mais ao sul do Brasil, em abril e maio, e já causaram perdas em 96% dos municípios do estado (475 de 497). Segundo dados do governo estadual, até 3 de junho, quase 2,4 milhões de pessoas foram afetadas por inundações e deslizamentos de terra, quase 600 mil foram deslocadas e 172 morreram.
Em maio de 2024, a precipitação acumulada na cidade foi de 617,1 mm, mais de quatro vezes a média do mês, um recorde histórico.
Produção de soja e pecuária interrompidas
O problema no Rio Grande do Sul ainda é recente e parece ter um maior impacto na produção de soja e pecuária. Dito isso, participantes do mercado têm discutido as consequências da enchente no RS e como isso afetará a oferta e demanda de milho e soja no Brasil.
Como o Brasil é um dos maiores exportadores de milho e soja do mundo, a tragédia afetará os fluxos comerciais e os preços internacionais?
Parece um pouco cedo para responder a essas perguntas de forma completa, pois a extensão dos danos ainda é incerta. Pode levar várias semanas ou meses até que o governo local e outras agências concluam seus cálculos de perdas para bushels de soja, bem como para suínos, frangos, bovinos de corte e de leite, etc.
Impactos na produção de grãos
Considerando as estimativas de produção da Conab para o ano de mercado 2023-2024, em 5 de maio, quase 1,7 milhão de hectares ainda estavam por ser colhidos no RS, o que correspondia a 5,3 MMT de soja (211 mbu).
Estimativas iniciais no início de maio sugeriam uma possível perda de produção de soja de 1,50 MMT (59,05 Mbu) no estado. Algumas semanas depois, participantes do mercado já haviam dobrado suas estimativas para 3 MMT (118,1 Mbu), incluindo também perdas em instalações de armazenamento e qualidade.
Embora esses números não pareçam impressionantes em comparação com a produção estimada do Brasil para 2023-2024 (Conab em 147,7 MMT e USDA em 154 MMT), as perdas de produção e problemas logísticos no Rio Grande do Sul provavelmente afetarão a dinâmica de oferta e demanda doméstica do país, e os efeitos potenciais podem se espalhar para outros mercados.
Além disso, o impacto das recentes condições climáticas no RS pode afetar também a produção de milho, arroz, soja, trigo e pecuária no próximo ano. Devido a várias restrições (financeiras, perdas de equipamentos, terras não utilizadas, etc), vários produtores no estado podem não conseguir se recuperar completamente antes do início do plantio na primavera no Brasil, que ocorre no final de setembro e início de outubro.
Isso pode causar cortes na produção e exportação estimadas de milho e soja do Brasil no ano de mercado 2024-2025.
Colheita de soja em andamento
Segundo a Conab, o Rio Grande do Sul é o segundo maior produtor de soja do Brasil, atrás apenas do Mato Grosso. Em seu relatório de oferta e demanda de maio, a Conab estimou a produção de soja do RS em 21,43 MMT em 2023-2024, o que representa 14,5% da produção esperada do país e quase metade da produção nos estados do sul. O RS também é o principal estado produtor de biodiesel no Brasil, com alto uso de óleo de soja e gorduras animais (Abiove e ANP).
O progresso da colheita de soja no RS estava 60% concluído durante a semana que terminou em 28 de abril (Conab). Na mesma semana, o Instituto Nacional de Meteorologia emitiu um alerta de tempestades severas no estado, e as condições climáticas pioraram significativamente após isso.
O nível da água ainda está recuando em Porto Alegre, a capital do estado, mas é muito provável que ocorra um efeito regional no balanço do país. Possíveis impactos no comércio e nos preços internacionais também são possíveis, dada a importância do estado para a agricultura do Brasil.



